Por Alexandre Jorge Mano

Existe uma virtude política que raramente é celebrada com o entusiasmo que merece: o pragmatismo. Não a ideologia da conveniência, nem o oportunismo disfarçado de flexibilidade — mas a capacidade genuína de um líder se orientar pelos resultados, de sacrificar o conforto da retórica pela exigência dos factos, de governar para o que é possível sem perder de vista o que é necessário. É essa qualidade que, cada vez mais, define o perfil de Daniel Francisco Chapo como Chefe de Estado da República de Moçambique. E poucos sectores a ilustram tão bem quanto o dos hidrocarbonetos.

A notícia de que os contratos de pesquisa de gás do Sexto Concurso Internacional entraram finalmente na fase de execução — com as empresas vencedoras já em processo de obtenção das licenças ambientais — é, para quem acompanha de perto a economia política moçambicana, um sinal que merece ser celebrado com seriedade e com esperança. Mas é também, e sobretudo, um reflexo da qualidade da liderança que o país tem neste momento.

UM PROCESSO QUE ATRAVESSOU ADVERSIDADES

O Sexto Concurso foi lançado em 2021, num contexto de adversidade acumulada. A pandemia da Covid-19 lançava sombras sobre todos os sectores, e a confiança dos investidores no Norte de Moçambique estava fragilizada pelo ciclo de violência armada em Cabo Delgado. Apesar desse ambiente desfavorável, as propostas apresentadas pela CNOOC e pela ENI demonstraram que Moçambique continuava a ser um país atractivo, com potencialidades petrolíferas apetecíveis.  Esse voto de confiança não foi um gesto de cortesia — foi um julgamento estratégico sobre soberania, sobre instituições e sobre o futuro.

A CNOOC apresentou propostas para cinco áreas — S6-A, S6-B, A6-G, A6-D e A6-E — nas bacias do Save e de Angoche, enquanto a ENI concorreu ao bloco A6-C, em Angoche, em parceria com a Empresa Nacional de Hidrocarbonetos (ENH). Trata-se de uma constelação de blocos que cobre geografias pouco exploradas da costa moçambicana — regiões com imenso potencial sedimentar que aguardavam, há décadas, a atenção devida. Os programas de investigação propostos prevêem investimentos na ordem dos 370 milhões de dólares e a abertura de, pelo menos, quatro poços em águas profundas.

CHAPO E A DECISÃO DE NÃO DEIXAR ADORMECER O PROCESSO

Chapo chegou à Presidência num momento de extraordinária dificuldade. O país saía de um ciclo eleitoral tenso, carregava o peso de uma crise de segurança prolongada, debatia-se com fragilidades macroeconómicas estruturais e navegava num contexto geopolítico em rápida transformação. Nenhuma dessas circunstâncias convidava à ousadia fácil. E foi exactamente aí que o seu pragmatismo se revelou: não cedeu à tentação do voluntarismo, mas também não paralisou perante a complexidade.

A aprovação dos contratos do Sexto Concurso, a decisão final de investimento do Coral Norte FLNG — avaliado em 7,2 mil milhões de dólares — e a progressão sistemática dos megaprojectos da Bacia do Rovuma não aconteceram por acaso. Aconteceram porque existe, no topo do Estado, uma liderança que entende que o gás não é um argumento de campanha — é um instrumento de desenvolvimento que exige processos, regras, parcerias e paciência institucional.

A forma como conduziu a política externa reforça este diagnóstico. A visita de estado à China, em Abril de 2026, não foi uma viagem de cortesia protocolar — foi uma operação estratégica de captação de investimento e consolidação de parcerias, da qual resultaram acordos em infra-estruturas, cooperação técnica e energia. A parceria entre a ENH e a CNOOC abre a porta à transferência de tecnologia e de conhecimento para a empresa nacional, contribuindo para a consolidação da sua capacidade técnica e empresarial — objectivo que aponta directamente para a soberania energética de longo prazo. Chapo não foi a Pequim falar de princípios — foi negociar resultados. Essa distinção importa.

A LIÇÃO DO CORAL SUL E O HORIZONTE QUE SE ABRE

O argumento mais poderoso a favor da trajectória que Moçambique percorre no sector do gás é, sem dúvida, a lição viva que o projecto Coral Sul nos oferece diariamente. O projecto Coral Sul já entregou perto de 300 milhões de dólares em receitas ao Estado moçambicano e realizou mais de 150 carregamentos de gás natural liquefeito para exportação  — prova inequívoca de que quando as instituições funcionam, quando os contratos são respeitados e quando a governação é séria, os resultados chegam. O Coral Norte FLNG deverá produzir 3,5 milhões de toneladas de GNL por ano a partir de 2028, consolidando Moçambique como um dos principais exportadores de gás natural em África.

O Sexto Concurso não é uma réplica do Rovuma — as bacias de Angoche e do Save têm características próprias, e os resultados só serão conhecidos após anos de pesquisa rigorosa. Mas a lógica é a mesma: explorar com responsabilidade, regular com competência, e transformar o subsolo marítimo em bem-estar tangível para os cidadãos moçambicanos.

GOVERNAR O CONCRETO PARA ALCANÇAR O NECESSÁRIO

No plano interno, o pragmatismo presidencial manifesta-se igualmente na forma como tem tratado os dossiês socialmente sensíveis. A iniciativa “Um Distrito, Um Centro de Emprego e Formação”, o programa “Acredita Emprega” e a aposta declarada no dividendo demográfico — num país em que mais de 60% da população tem menos de 25 anos — revelam um governante que leu os dados e percebeu que a estabilidade política de Moçambique passará, nas próximas décadas, pela capacidade de o Estado criar oportunidades reais para a sua juventude. Não é discurso — é estratégia.

O pragmatismo de Chapo não é ausência de visão. É, precisamente, a visão que reconhece que os grandes objectivos nacionais — soberania, desenvolvimento e coesão — só se alcançam através de pequenas decisões correctas, acumuladas dia após dia, com disciplina e sentido de Estado. É a recusa do grandioso que não chega, em favor do concreto que transforma.

Moçambique não precisa de um Presidente que prometa tudo. Precisa de um Presidente que entregue o possível, com consistência, e construa as condições para que o impossível de hoje se torne o alcançável de amanhã. A entrada do Sexto Concurso na fase de execução é mais um passo nessa direcção — silencioso, técnico e profundamente significativo.

E diz muito sobre quem lidera o país neste momento.

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