“A confirmação de que o Mozambique LNG atingiu 45% de execução deve ser interpretada como um sinal de confiança para os investidores, mas sobretudo como um alerta para acelerar a integração das empresas moçambicanas na maior cadeia de valor industrial da história do País”.

Por Clésio Foia, Economista-Chefe

Quando a TotalEnergies anuncia que o Mozambique LNG já alcança a fasquia de  aproximadamente 45% de execução física e mantém inalterado o objectivo de iniciar a produção em 2029, o mercado tende a olhar para este indicador como um simples marco de engenharia.

Eu vejo algo muito maior. Vejo um indicador que mede o grau de maturidade de um projecto que poderá redefinir a trajectória económica de Moçambique durante as próximas décadas.

Os 45% representam muito mais do que estruturas metálicas erguidas, equipamentos instalados ou infra-estruturas concluídas. Representam a consolidação da confiança dos investidores internacionais, a redução gradual do risco percebido sobre Cabo Delgado e a confirmação de que Moçambique continua a posicionar-se entre os principais destinos globais de investimento energético.

Mas representam igualmente um desafio. À medida que o projecto avança, diminui o tempo disponível para preparar empresas nacionais, desenvolver competências, estruturar financiamento e criar condições para que o conteúdo local deixe de ser uma aspiração política e passe a constituir um verdadeiro motor de industrialização.

I. O verdadeiro activo estratégico do Mozambique LNG começa onde termina a Engenharia

O investimento de cerca de 20 mil milhões de dólares da Área 1 nunca se limitou à construção de uma unidade de liquefacção. O verdadeiro impacto económico nasce da vasta cadeia de fornecimento que sustenta uma operação desta dimensão.

Uma indústria de LNG mobiliza engenharia, logística integrada, manutenção industrial, transporte marítimo e terrestre, operações offshore e subsea, automação, tecnologias digitais, gestão ambiental, segurança industrial, laboratórios especializados, serviços médicos, alimentação, alojamento, procurement, instrumentação, inspecção técnica, formação profissional e centenas de actividades complementares.

É precisamente neste ecossistema que reside a maior oportunidade para as empresas moçambicanas.

As grandes economias produtoras de hidrocarbonetos nunca enriqueceram apenas porque exportaram petróleo ou gás. Prosperaram porque utilizaram estes investimentos para desenvolver fornecedores nacionais, aumentar a produtividade, transferir tecnologia e criar empresas capazes de competir em mercados internacionais.

É exactamente esta transformação que Moçambique deve acelerar.

II. 2029 começa a ser decidido agora

A manutenção do calendário de produção demonstra que a TotalEnergies conseguiu ultrapassar dificuldades logísticas provocadas pelas tensões geopolíticas no Médio Oriente, preservando a trajectória do projecto. Contudo, enquanto o cronograma industrial permanece relativamente estabilizado, o calendário da preparação empresarial continua perigosamente atrasado.

Uma empresa nacional não se transforma num fornecedor de Oil & Gas em poucos meses. A obtenção de certificações internacionais, o reforço da governação corporativa, a formação técnica, a mobilização de capital, a aquisição de equipamentos e a adaptação aos rigorosos padrões de HSE, ESG, QA/QC e compliance exigem tempo, investimento e acompanhamento permanente.

Se esta preparação não for acelerada imediatamente, existe o risco do projecto cumprir integralmente o seu calendário operacional enquanto uma parte significativa das empresas moçambicanas permanece sem capacidade para aproveitar a fase mais intensa das oportunidades económicas.

Em suma, o maior risco para o conteúdo local já não é a ausência de oportunidades, é a velocidade insuficiente da preparação empresarial.

III. O próximo ciclo do gás exige uma nova arquitectura económica

Na minha perspectiva, Moçambique precisa de evoluir da lógica tradicional de conteúdo local para um verdadeiro ecossistema nacional de desenvolvimento de fornecedores.

Isso significa disponibilizar informação antecipada sobre futuras oportunidades de procurement, aproximar os operadores internacionais das empresas nacionais, criar mecanismos de financiamento específicos para contratos de Oil & Gas, apoiar processos de certificação internacional e estimular consórcios empresariais que permitam às PMEs ganhar escala suficiente para responder às exigências da indústria.

Ao mesmo tempo, torna-se essencial integrar bancos comerciais, fundos de desenvolvimento, universidades, institutos técnicos e associações empresariais numa estratégia coordenada que transforme contratos em conhecimento, conhecimento em produtividade e produtividade em competitividade internacional.

O sucesso do conteúdo local não será determinado apenas pelo número de empresas registadas nas plataformas de fornecedores. Será medido pelo número de empresas que conseguem crescer, inovar, contratar mais trabalhadores, investir em tecnologia e continuar competitivas muito depois da conclusão dos grandes projectos.

IV. Os três projectos do Rovuma podem criar uma nova economia nacional

A produção em curso da Coral Sul, o desenvolvimento da Coral Norte, o avanço consistente do Mozambique LNG e a expectativa da Decisão Final de Investimento do Rovuma LNG colocam Moçambique perante uma oportunidade que poucos países africanos tiveram.

Pela primeira vez, o País poderá beneficiar de vários megaprojectos energéticos em diferentes fases de desenvolvimento, criando uma procura contínua por bens, serviços especializados e capital humano durante mais de uma década.

Esta convergência cria condições únicas para consolidar empresas nacionais, desenvolver competências técnicas altamente especializadas, expandir o mercado de trabalho qualificado, fortalecer o sistema financeiro e aumentar significativamente a complexidade económica da estrutura produtiva moçambicana.

Contudo, esta oportunidade não será automática.

Sem uma política consistente de desenvolvimento de fornecedores, financiamento empresarial e fortalecimento institucional, parte significativa deste potencial poderá continuar concentrada nos operadores internacionais e nas grandes cadeias globais de abastecimento.

V. Os próximos 55% serão os mais importantes para Moçambique

Os 45% de execução anunciados pela TotalEnergies representam um marco relevante para o projecto.

Mas acredito que os 55% que ainda faltam serão muito mais importantes para a economia nacional.

É durante esta fase que Moçambique deverá decidir se pretende apenas assistir ao crescimento da indústria de LNG ou utilizar este ciclo de investimento para construir uma geração de empresas mais robustas, inovadoras e internacionalizadas.

O verdadeiro legado do Mozambique LNG não será medido apenas pelas exportações de gás nem pelas receitas fiscais que vierem a ser arrecadadas.

Será medido pela capacidade de transformar um megaprojecto energético numa plataforma permanente de industrialização, desenvolvimento empresarial, criação de emprego qualificado e aumento da competitividade nacional.

Se conseguirmos fazê-lo, então os 45% hoje anunciados deixarão de representar apenas o progresso de uma obra.

Passarão a representar o momento em que Moçambique começou verdadeiramente a construir a sua economia do futuro.

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