Por: Luís Canhemba
Durante o fim-de-semana recebemos a informação sobre os ataques dos EUA e Israel ao Irão, que culminou com a morte do líder supremo do país, Ayatollah Ali Khamenei.
As análises dos maiores especialistas vêem de todo o mundo, sob o prisma militar e geopolítico. No entanto, para países como Moçambique, o verdadeiro impacto será económico. E será sentido no bolso de cada cidadão.
A primeira variável a reagir a este tipo de conflito é sempre o preço do petróleo. Não por acaso. O Irão produz cerca de 3,3 milhões de barris por dia e, mais importante ainda, está localizado junto do estratégico Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20 a 25% de todo o petróleo consumido no mundo, de acirdo com a U.S. Energy Information Administration.
Isto significa que qualquer instabilidade naquela região cria imediatamente nervosismo nos mercados. Nem sequer é necessário que o fornecimento seja interrompido. Basta o risco ou a ideia de que pode acontecer a qualquer momento. A história recente confirma isso. Lembrem-se só que em 2022, com o início da guerra na Ucrânia, o preço do petróleo subiu mais de 20% em duas semanas, devido ao medo de interrupção do petróleo russo.
E quando o petróleo sobe, toda a economia global treme. Quando o preço do petróleo aumenta, sobe o custo do transporte, sobe o custo da produção e sobe o preço dos alimentos. O resultado é ainflação. E a inflação é, na prática, um imposto invisível que penaliza sobretudo os mais pobres.
Para Moçambique, o impacto é particularmente severo. O país importa praticamente a totalidade dos combustíveis que consome, com uma factura anual que pode atingir dois mil milhões de dólares. Isso significa que qualquer aumento de 10% ou 20% no preço internacional do petróleo representa centenas de milhões de dólares adicionais em custos para a economia nacional.
E esse impacto manifesta-se rapidamente no aumento do custo de vida. O transporte torna-se mais caro. Os alimentos tornam-se mais caros. A inflação sobe. E o poder de compra das famílias diminui. Mas o impacto não termina aí. Existe um segundo efeito, mais silencioso, mas potencialmente mais perigoso: o impacto nas taxas de juro.
Quando a inflação global sobe, os bancos centrais mantêm as taxas de juro elevadas. Isso torna o financiamento mais caro para países em desenvolvimento. Para Moçambique, isso significa maior dificuldade em financiar infra-estruturas, maior custo da dívida e menor margem de manobra orçamental. Este é o verdadeiro custo económico de uma guerra distante. Mas, como em todas as crises, existem também oportunidades.
O mundo está a aprender uma lição importante: a dependência excessiva de certas regiões para o fornecimento de Oil and Gas é um risco estratégico. É aqui que Moçambique pode entrar na equação global. Estima-se que o País possua mais de 100 triliões de pés cúbicos de reservas de gás natural, colocando-o entre os principais detentores deste recurso a nível mundial.
Num contexto de crescente incerteza no Médio Oriente e na Europa de Leste, países com recursos energéticos estáveis tornam-se parceiros estratégicos valiosos. Moçambique tem o potencial de beneficiar desta nova realidade. Mas esse potencial não é automático. Depende da capacidade do país de garantir estabilidade, previsibilidade e execução eficiente dos seus projectos.
O Oil and Gas é hoje um instrumento de poder económico. E os países que conseguem posicionar-se como fornecedores confiáveis ganham relevância internacional, atraem investimento e fortalecem as suas economias. No entanto, é importante não perder de vista a realidade imediata. No curto prazo, Moçambique é mais vulnerável do que beneficiário. O país continua dependente da importação de combustíveis e exposto aos choques externos. Esta é talvez a principal lição deste momento: num mundo globalizado, a economia de um país não é determinada apenas pelas suas decisões internas, mas também por eventos que ocorrem a milhares de quilómetros de distância.
Moçambique não participa no conflito que opõe os aliados EUA/Israel ao Irão. Mas paga o seu preço. E é precisamente por isso que a gestão económica prudente, a diversificação energética e o aproveitamento estratégico dos recursos naturais não são apenas opções. São imperativos. Porque, no final, as guerras modernas não afectam apenas os campos de batalha. Afectam as economias.
E, inevitavelmente, afectam a todos nós.
Foto-2: Raheb Homavandi/File Photo/Reuters








