Por: Luis Canhemba

A recente actualização dos preços dos combustíveis em Moçambique reacendeu um debate que, na verdade, nunca desapareceu: até que ponto a economia moçambicana continua excessivamente vulnerável aos choques externos?

Ao mesmo tempo, a decisão do Governo de subsidiar parcialmente os transportadores surge como uma medida economicamente compreensível e socialmente necessária no curto prazo. Numa economia onde o transporte influencia directamente o custo de vida, evitar aumentos abruptos das tarifas ajuda a proteger famílias, reduzir pressão social e limitar impactos inflacionários imediatos.

Quando escrevi, há alguns meses, o artigo “O preço de uma guerra distante”, procurei mostrar que conflitos geopolíticos aparentemente longínquos acabam sempre por chegar ao bolso dos moçambicanos. Na altura, defendia que “o verdadeiro impacto seria económico” e que o petróleo seria “a primeira variável a reagir”. Hoje, os ajustamentos nos preços internos dos combustíveis confirmam exactamente essa realidade.

O preço de uma guerra distante: por que Moçambique deve prestar atenção ao conflito no Irão? | Gasoduto

Moçambique continua profundamente dependente da importação de combustíveis. Isso significa que qualquer combinação entre subida do petróleo nos mercados internacionais, pressão cambial, aumento dos custos logísticos ou instabilidade geopolítica transforma-se rapidamente em inflação interna. E os combustíveis possuem uma característica particularmente sensível: afectam praticamente toda a economia ao mesmo tempo.

Quando os combustíveis sobem, sobe o custo do transporte. Quando sobe o transporte, sobe o custo dos alimentos, da logística, da construção, da agricultura e dos serviços. O resultado final é uma pressão generalizada sobre o custo de vida. É precisamente por isso que a inflação funciona muitas vezes como “um imposto invisível”.

Mas a actual discussão sobre combustíveis em Moçambique já não pode limitar-se apenas ao preço internacional do petróleo. O problema tornou-se mais estrutural.

Nos últimos meses, o país enfrentou sinais claros de pressão no abastecimento de combustíveis, expondo fragilidades financeiras e logísticas relevantes. O constrangimento não resulta necessariamente da ausência de combustível no mercado internacional, que é um factor por causa dos constrangimentos no Estreio de Ormuz, mas também da dificuldade do sistema financeiro nacional em garantir liquidez suficiente em divisas para suportar importações.

Este detalhe é extremamente importante. Demonstra que a questão energética é também um debate sobre reservas externas, estabilidade cambial, capacidade financeira da banca, logística e robustez macroeconómica.

Ao mesmo tempo, existe uma dimensão regional frequentemente ignorada. O diferencial de preços entre Moçambique e países vizinhos cria incentivos de arbitragem, pressionando ainda mais os stocks internos. Ou seja, parte da pressão sobre o abastecimento também resulta da própria dinâmica regional do mercado energético.

Entretanto, há aqui um paradoxo económico que merece atenção.

Enquanto o país continua vulnerável no curto prazo devido à dependência das importações de combustíveis, Moçambique posiciona-se simultaneamente como um dos mais relevantes actores emergentes do gás natural em África.

Com mais de 100 triliões de pés cúbicos de reservas de gás, Moçambique possui potencial para ganhar relevância estratégica internacional. Contudo, existe uma diferença importante entre possuir recursos e transformar recursos em desenvolvimento.

A experiência africana mostra que riqueza energética não garante prosperidade automática. Países ricos em recursos naturais podem continuar vulneráveis se não construírem instituições fortes, estabilidade macroeconómica e capacidade produtiva interna.

É aqui onde a diversificação das fontes de energia se torna estratégica. O mundo está a mudar rapidamente. A China, por exemplo, já demonstra uma forte transição energética, com predominância crescente de veículos eléctricos no mercado automóvel usado. Isso mostra que as grandes economias estão a preparar-se para reduzir dependência dos combustíveis fósseis, aumentar eficiência energética e proteger-se da volatilidade petrolífera internacional.

Moçambique também precisa de começar a pensar a longo prazo. O país possui potencial hidroeléctrico, gás natural, energia solar e outras fontes renováveis capazes de reduzir gradualmente a dependência dos combustíveis importados.

Ao mesmo tempo, existe outra dimensão fundamental neste debate: a produção interna.

Esta semana, durante a sua deslocação à província de Tete, o Presidente Daniel Chapo defendeu a necessidade do país produzir mais internamente como forma de enfrentar a pressão inflacionária. E essa visão possui forte racionalidade económica.

Países excessivamente dependentes das importações tornam-se mais vulneráveis aos choques cambiais, aos custos logísticos internacionais e às crises externas. Quanto maior for a produção nacional, agrícola (essencialmente), industrial e energética, menor será a exposição da economia às oscilações externas.

Por isso, o verdadeiro debate sobre combustíveis em Moçambique não deve ser apenas sobre aumentos de preços. Deve ser sobre vulnerabilidade estrutural.

A questão central é simples: como pode um país com enorme potencial energético continuar tão exposto a choques externos?

A resposta passa por várias frentes: maior diversificação energética; fortalecimento logístico; expansão ferroviária; utilização estratégica do gás natural; maior capacidade de armazenamento; estabilidade cambial; industrialização e investimento sério na produção nacional.

A principal lição permanece clara: num mundo globalizado, guerras distantes, tensões geopolíticas e choques energéticos nunca permanecem distantes durante muito tempo. Mais cedo ou mais tarde, transformam-se em inflação, pressão sobre o custo de vida e desafios económicos internos. E é precisamente por isso que a discussão sobre combustíveis deve deixar de ser apenas conjuntural. Ela deve tornar-se estratégica.

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