Por: Luís Canhemba
Há conversas que não acabam quando terminam.
Recentemente, numa troca de ideias com Narciso Nhacila, por sinal o fundador e Editor de Gasoduto, uma plataforma que se dedica à produção e difusão de informação sobre o sector de Oil and Gas e Energia Eléctrica, ficámos presos a uma pergunta simples, mas inquietante: o gás vai transformar Moçambique ou apenas ampliar os seus problemas?
Desde então, essa pergunta ficou comigo.
Porque quanto mais olho para os números e para o mundo, mais percebo que o futuro do país não está apenas no gás. Está no momento histórico em que esse gás surge. E, sobretudo, nas decisões que vamos tomar, como País.
O mundo mudou e Moçambique ganhou relevância. A energia voltou ao centro da geopolítica global.
A Guerra na Ucrânia expôs a vulnerabilidade energética da Europa e desencadeou uma corrida por novas fontes de gás natural. Países europeus procuram, com urgência, alternativas ao fornecimento russo.
Ao mesmo tempo, tensões no Médio Oriente e instabilidade em rotas energéticas tradicionais reforçam uma tendência clara: diversificar a lista de fornecedores deixou de ser uma opção e passou a ser uma necessidade estratégica.
É neste contexto que Moçambique emerge. Com mais de 130 triliões de pés cúbicos de gás, o país deixou de ser apenas um potencial produtor e passou a ser uma peça relevante no tabuleiro energético global.
O timing, pela primeira vez, joga a nosso favor. A janela de oportunidade é real, mas não eterna.
O QUE DIZEM OS NÚMEROS?
Os projectos de LNG em Moçambique representam mais de 50 mil milhões de dólares em investimento.
As projecções continuam impressionantes: até 89 milhões de toneladas de LNG por ano. Mais de 50% do PIB poderá vir do gás. Até 500 mil milhões de dólares em receitas até 2045. Ou seja, em aproximadamente duas décadas.
Mas há um detalhe crítico: esta janela pode fechar.
A transição energética global está em aceleração. A pressão por energias renováveis e descarbonização significa que o gás é visto cada vez mais como um combustível de transição e não permanente.
Ou seja: Moçambique não tem apenas uma oportunidade. Tem uma oportunidade com prazo.
A ILUSÃO DOS RECURSOS, AGORA AMPLIADA PELA URGÊNCIA GLOBAL
Há mais de duas décadas, Jeffrey Sachs e Andrew Warner mostraram que, “países ricos em recursos naturais tendem a crescer mais lentamente”.
Hoje, esse risco é ainda maior, porque a combinação de factores como (1) preços elevados de energia, (2) urgência internacional e (3) influxo massivo de capital pode criar uma falsa sensação de inevitabilidade do sucesso.
Mas sucesso não é automático, nunca foi!
O verdadeiro risco é correr depressa na direcção errada. Efectivamente a pressão global por gás pode levar a decisões apressadas que já assistimos por cá, como por exemplo, contratos mal negociados, antecipação excessiva de receitas, endividamento baseado em expectativas ou fraca captura de conteúdo local.
Moçambique já apresenta uma dívida próxima de 90% do PIB, um sinal claro de vulnerabilidade e não nos interessa piorar a situação.
A literatura é consistente: booms de recursos, quando mal geridos, amplificam fragilidades institucionais (van der Ploeg, 2011).
O QUE DIFERENCIA OS PAÍSES QUE GANHAM?
A Noruega não teve pressa.
O Botswana não improvisou.
Ambos fizeram algo contraintuitivo: resistiram à tentação do curto prazo.
Como demonstram Acemoglu e Robinson (2012), o factor decisivo não é o recurso, mas sim a qualidade das instituições que os países têm.
O ALGORITMO DO FUTURO (AGORA SOB PRESSÃO GLOBAL).
Se antes o desafio era complexo, hoje é urgente. O algoritmo moçambicano terá de resolver três equações ao mesmo tempo.
1. Aproveitar o momento sem comprometer o futuro: o que significa capturar receitas hoje, mas protegê-las para amanhã;
2. Transformar gás em economia real: infra-estruturas, indústria e emprego. O que significa que não podemos pensar apenas em exportações;
3. Preparar o pós-gás antes do pico do gás: porque o mundo já está a planear o fim do ciclo.
O PARADOXO MANTÉM-SE, MAS O RISCO AUMENTOU
Moçambique continua com um PIB per capita inferior a 700 dólares. Tal facto significa que, agora, a questão é ainda mais exigente: conseguiremos transformar uma oportunidade histórica acelerada por crises globais em desenvolvimento sustentável? Ou vamos apenas reagir ao momento, sem estratégia?
No fim, não é sobre gás. É sobre timming.
Volto à conversa com Narciso Nhacila, desta vez, com uma conclusão mais clara: Moçambique não está apenas diante de uma oportunidade. Está diante de uma janela histórica condicionada pelo tempo e pela geopolítica.
O gás pode transformar o país. Mas também pode passar, como tantas outras oportunidades, sem deixar legado.
Isso significa que o algoritmo não está no subsolo, mas sim nas decisões que tomarmos agora.
E, desta vez, o tempo conta.







