Por: Luís Canhemba

Há cerca de três meses, no início da escalada militar entre o Irão, os Estados Unidos e Israel, escrevi que o verdadeiro impacto daquele conflito não seria militar, mas económico. Na altura, procurei chamar a atenção para um facto simples: embora Moçambique estivesse geograficamente distante do teatro das operações, acabaria por sentir os seus efeitos. Afinal, como então referi, o petróleo é o sangue que alimenta a economia moderna.

Hoje, escrevo este artigo num contexto diferente, marcado por sinais de cessar-fogo e por uma esperança cautelosa em relação ao futuro do acordo alcançado. Persistem dúvidas quanto à sua sustentabilidade. A história do Médio Oriente aconselha prudência. Mas, mesmo que ainda seja cedo para celebrar, há uma constatação que merece destaque: se as guerras têm custos económicos, a paz também produz dividendos.

Os moçambicanos não precisam de recorrer aos livros de economia para compreender isso. Nas últimas semanas, assistimos a filas nas bombas de combustível, receios quanto ao abastecimento e incertezas sobre a evolução dos preços. Muitos encararam o problema como uma crise local, mas a verdade é que os seus factores explicativos encontravam-se a milhares de quilómetros de distância. Quando o mundo receia que o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial, possa ser afectado por um conflito, os mercados reagem de imediato. E quando os mercados reagem, os efeitos acabam por chegar a Maputo, Beira, Nampula ou Pemba.

Com os primeiros sinais de entendimento entre os Estados Unidos da América e Irão a surgirem, o preço internacional do petróleo recuou mais de 4%, trazendo algum alívio aos mercados. Segundo a Agência Internacional de Energia, uma redução de 10 dólares por barril representa uma poupança superior a 300 mil milhões de dólares por ano para os países importadores líquidos de petróleo. Para economias como a moçambicana, isso significa menos pressão inflacionária, menores custos de transporte, maior previsibilidade para as empresas e mais poder de compra para as famílias.

Alguns academicos e alguns dados ajudam-nos a perceber esta nova realidade. John Maynard Keynes lembrava que a prosperidade depende da confiança. Jeffrey Sachs acrescenta que a paz constitui um activo económico, porque permite direccionar recursos para actividades produtivas em vez de os consumir em conflitos destrutivos.

O Fundo Monetário Internacional estima que um aumento de 10% no preço do petróleo pode retirar cerca de 0,2 pontos percentuais ao crescimento económico mundial. Em sentido contrário, a redução das tensões geopolíticas contribui para impulsionar a economia global.
Paul Collier, na sua obra “The Bottom Billion”, argumenta que os países em desenvolvimento são os mais vulneráveis aos choques externos. Mas também são aqueles que mais beneficiam da estabilidade.

Para Moçambique, um ambiente internacional menos turbulento poderá contribuir para reduzir a inflação, fortalecer a confiança dos investidores e criar melhores condições para o crescimento económico.

Segundo o Instituto Internacional de Investigação para a Paz de Estocolmo, as despesas militares mundiais ultrapassaram os 2,7 biliões de dólares em 2025. Uma parte destes recursos, se canalizada para a educação, saúde, infra-estruturas e inovação, poderia transformar significativamente a vida de milhões de pessoas.

Há três meses escrevi sobre o preço económico de uma guerra distante. Hoje, num momento em que ainda persistem incertezas sobre a durabilidade do acordo alcançado, talvez seja igualmente oportuno reflectir sobre os benefícios económicos da paz. Porque se as guerras não respeitam fronteiras, os dividendos da paz também não. E, em última análise, os seus efeitos podem ser sentidos em Washington, Telavive e Teerão, mas igualmente nas bombas de combustível da zona, nos mercados e no quotidiano dos moçambicanos.

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