Por: Luís Canhemba
A xenofobia é frequentemente analisada como um problema de natureza social, política ou humanitária. No entanto, existe uma dimensão que tem recebido pouca atenção: o seu potencial para comprometer a segurança energética da própria África do Sul.
Os episódios recorrentes de violência contra estrangeiros, os bloqueios de estradas e a instabilidade nas principais rotas de transporte representam riscos para as cadeias logísticas que sustentam o funcionamento da maior economia africana. Quando essas cadeias são perturbadas, os impactos deixam rapidamente de ser apenas sociais e passam a ser económicos.
NÚMEROS AJUDAM A COMPREENDER A VULNERABILIDADE
Em 2024, a África do Sul importou cerca de 16,3 mil milhões de litros de combustíveis refinados, dos quais 10,8 mil milhões de litros (66%) eram diesel, 4 mil milhões de litros (25%) gasolina, 718 milhões de litros de combustível de aviação e 589 milhões de litros de GPL.
Estes dados demonstram que uma parte significativa da procura energética do país depende de uma logística internacional eficiente e contínua.
A situação torna-se ainda mais sensível quando se observa que as refinarias sul-africanas perderam capacidade ao longo da última década, aumentando a dependência de combustíveis importados. Isso significa que qualquer perturbação nos corredores de transporte ou nas cadeias de distribuição pode ter efeitos imediatos sobre a disponibilidade de combustíveis e sobre os preços pagos pelos consumidores e pelas empresas.
PAPEL ESTRATÉGICO DESEMPENHADO POR MOÇAMBIQUE
O Porto de Maputo, os terminais de combustíveis da Matola e o Corredor de Maputo constituem uma das principais portas de entrada para mercadorias destinadas ao centro industrial sul-africano.
Paralelamente, o gasoduto da ROMPCO transporta gás natural dos campos de Pande e para Temane, na província de Inhambane, para Gauteng e Secunda, abastecendo indústrias fundamentais para a economia sul-africana.
Isto significa que a segurança energética da África do Sul já não depende apenas das suas refinarias, dos navios ou dos mercados internacionais. Depende também da estabilidade dos corredores logísticos regionais e da cooperação com países vizinhos, particularmente Moçambique.
Imagine-se um cenário em que manifestações violentas impeçam a circulação de camiões, provoquem o encerramento temporário de postos fronteiriços ou desencorajem transportadores internacionais.
O primeiro efeito seria o atraso na reposição de combustíveis nos centros de distribuição. Seguir-se-iam aumentos dos custos logísticos, pressão sobre os preços dos combustíveis e riscos de escassez localizada, sobretudo nas regiões com maior consumo industrial.
AS CONSEQUÊNCIAS ECONÓMICAS SERIAM PROFUNDAS
O sector mineiro, a indústria transformadora, o transporte rodoviário, a agricultura e a logística dependem diariamente do fornecimento contínuo de diesel. Uma quebra na cadeia de abastecimento teria reflexos imediatos sobre os custos de produção, a inflação e a competitividade da economia.
O próprio sector do gás enfrenta desafios relevantes. A Associação dos Grandes Consumidores Industriais de Gás da África do Sul alerta que uma interrupção do fornecimento poderá afectar indústrias que empregam directamente cerca de 70 mil trabalhadores e contribuem com entre 300 mil milhões e 500 mil milhões de rands por ano para a economia sul-africana.
A grande lição económica é clara: a xenofobia deixou de ser apenas um problema de convivência social. Ela tornou-se um factor de risco para cadeias de abastecimento críticas.
A África do Sul necessita de proteger os seus corredores logísticos, reforçar a cooperação económica com Moçambique e garantir que infraestruturas estratégicas, como o Corredor de Maputo, os terminais da Matola e o sistema regional de transporte de gás, funcionem sem interrupções.
Numa economia que importa mais de 16 mil milhões de litros de combustíveis refinados por ano, a maior ameaça é um factor interno que possa comprometer a circulação segura e eficiente da energia de que dependem as famílias, as empresas e a indústria.
A segurança energética começa nas cadeias logísticas. E nenhuma economia consegue garantir energia abundante e acessível quando a instabilidade afasta transportadores, aumenta o risco operacional e enfraquece a integração regional.
A África do Sul deve encarar este desafio como uma prioridade estratégica para a estabilidade da sua economia. Isso significa, em bom rigor, parar com a Xenofobia.





